14 maio 19
Você é mais do que vê: para além das selfies

O espelho fincou como principal conceito deste projeto. Um item que possui os mais variados tipos de interação com as mulheres. E vários tipos de sentido. Algumas amam se observar, com direito a deixar uma marca de beijo no vidro. Outras olham vez e outra só para garantir que a blusa não está do avesso. Outras nem se atrevem graças à “ideia pronta” de que não curtirão o que veem.

Eu sou um misto dos dois últimos casos. Às vezes, eu me olho, como para desafiar o espelho. Em outras, meu olhar é furtivo, sem profundidade, para não correr o risco de encontrar “defeitos”.

Eu tenho reaprendido a me ver para alcançar o nível 1, pois se olhar pode ser o início da autoaceitação.

E selfies podem ser uma faca de dois gumes.

 

Entretempo: 21 de julho de 2018.

Capítulo: O retorno das selfies.

 

O espelho pode se expressar na forma fotográfica e seu grande reflexo atual vem das selfies. Uma grande lente que promete inspirar qualquer coisa positiva menos o fim do policiamento. É um espelho maior, de acesso quase geral, cujos resultados podem ser reais ou manipulados. Na maioria dos casos o resultado é manipulado, o que não traz muito conforto para quem publica. Afinal, parece que nunca haverá um efeito bom o bastante para esconder as ditas imperfeições.

As selfies podem ser montadas, sempre no mesmo ângulo considerado perfeito. Ou espontâneas, com sua cara de bolacha depois de um dia bem esquisito. Independentemente do viés, essas tais fotografias refletem muitas coisas por segundo. E a ideia de se refletir ainda é um impasse para muitas. Justamente pelo que comentei acima: o receio de encontrar mais dos ditos defeitos.

Espelho é policiamento tão quanto uma selfie. No conforto da sua casa, você pode xingar o espelho o quanto for. A coisa muda em uma selfie, porque você a carrega no celular ou a posta nas redes sociais. De algum modo, você eternizou sua presença. O que pode ser bom ou ruim.

No caso do ruim, entramos no policiamento. Algumas lidam muito bem. Outras nem tanto.

Às vezes, eu me vejo no “nem tanto”.

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A data que abre este texto marcou o instante em que postei uma selfie, depois de muito tempo, no meu Instagram. Eu tinha acabado de cortar o cabelo e estava muito contente, especialmente porque uma das maravilhas de ter parado de fazer progressiva é sair do salão com os fios naturais. Ao vento. Sem qualquer sinal de queimadura nas orelhas por conta do secador. Curti o resultado do que se transformou em um grande apreço por fios mais curtos e foi esse resultado que me inspirou a tirá-la. No primeiro momento, exclusivamente para mostrar o corte para uma amiga.

Depois de ter feito isso, começou o processo de análise. Eu não tinha posado, nem nada. Simplesmente me coloquei em uma luz adequada e tirei a selfie. Indo e voltando entre as várias opções, acabei curtindo seriamente uma das fotos e a publiquei no meu feed. Rolou sim a ansiedade do julgamento. Um julgamento mais meu que de qualquer outra pessoa que se prestaria a dar like. Daí, eu comecei a pesar essas emoções e levei mais em conta o fato de que a foto era uma expressão de um detalhe que tinha adorado em mim. De verdade. Eu tinha amado o cabelinho novo!

Eu fiquei feliz por essa minha iniciativa. Eu gostei de algo em mim naturalmente e quis deixar esse momento salvo em algum lugar além da minha mente. E selfies são difíceis de surgirem no meu Instagram, pois eu uso essa plataforma para aprofundar meus textos e dividir momentos que me marcaram (detalhe esse que diminuiu bastante visto que escolhi preservar a energia).

Refleti que o mesmo poderia acontecer com as selfies. Publicadas com algum tipo de significado.

E assim aconteceu!

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Eu não tenho, ou ao menos não tinha, o hábito de tirar/postar selfies. Intimamente, eu achava esquisito, sendo que lá nos anos 90 era muito cool colocar a câmera diante da sua face e bater a foto. A curiosidade seguinte era saber se tamanho investimento dera certo (e eu tenho uma que prova o que poderia ser chamado de mico hoje em dia). Com as redes sociais, tudo que senti foi desconforto e o resultado sempre me pareceu artificial – a começar pela pose.

Quando o Instagram estourou, esse tipo de foto era tudo que mais se via e eu tentei acompanhar a tendência. Até perceber que não era algo que eu curtia. Eu realmente me achava esquisita diante do processo de ter a selfie “perfeita”. Salvo nos instantes em que me sentia bonitinha e fofa (WTF?).

Arrisquei algumas fotos durante o auge das selfies, mas logo tudo me pareceu sem sentido. Cheguei a deletar várias do meu feed (e deixei as que eu realmente apreciei). De alguma forma, a selfie não me refletia. Parecia um eu meio que forçado??? Justamente pela manutenção da aparência.

E isso é péssimo! É cansativo tentar acertar o ângulo da foto e eu não tenho muita paciência.

Por um tempo, eu me tornei a crítica da selfie. Eu me irritava com o flood alheio. Passada essa fase, eu consegui digerir melhor o movimento. Um movimento que psicólogos afirmam que pode ser nocivo visto que gera a dependência de likes. Com isso, torna uma pessoa fissurada nesse tipo de validação e a pessoa fica realmente mal se a validação não vem.

Tal ato pode desencadear ansiedade e depressão, por exemplo. Intensificar esses sintomas caso a pessoa já os tenha. Eu posso responder pela ansiedade, pois eu me via indo e voltando na foto para saber se alguém comentou. Ou se eu estava no “meu normal” ao ponto de ter coragem de publicar uma foto da minha face. E isso é ruim também e notei que melhorei do ano passado para cá (ainda mais quando parei de compartilhar minha vida online).

O Instagram foi além das selfies. Agora o tema é ser good vibes e entregar a vida perfeita. Até aí, tudo bem, mas uma hora você se vê em competição com tudo o que vê. Você começa a se sentir para trás. Você cria uma briga dentro de si por, supostamente, não fazer o suficiente para estar na mesma posição. Você se gera um mal-estar inconsciente e as vulnerabilidades se realçam.

Assim, se começa a espiral de comparações em que a ferida desse processo todo é você mesma.

Você começa a ser desonesta e injusta consigo mesma. Com sua jornada.

A real é que há muitas mentiras nessas redes. Porém, nada impede você de sentir que sua vida é desinteressante. Que você não é agradável o bastante ao ponto de ter likes. Que você é um fracasso. Nem um pouco bonita. O Instagram não é um reino da Deusa se mal usado. Essa rede não foge da nocividade.

Por um tempo, eu achei que competia com essas selfies, porque eu mesma não tinha a coordenação para tirar uma dita decente. Eu admirava quem conseguia, em lugares e em luzes diferentes, o que não era bem meu caso. Como tudo na minha vida, eu tinha que me sentir inspirada ao fazê-lo, como aconteceu com a primeira selfie que postei depois de anos na minha conta. A do cabelinho que vocês podem ver aí em cima. Não foi uma foto produzida. Nem muito menos de um evento especial.

Sou eu, em casa, com o cabelo recém-cortado, com uma cara mais ou menos, screaming por dentro com o resultado do novo visual. Foi uma delícia, pois a tirei em um modo de operação que me senti confortável. Não digo lá confiante, porque, como manda a ansiedade, a vontade de apagar sempre vem. Só que eu fiz isso por mim.

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Visualizar esta foto no Instagram.

🌟 Love Yourself 🌟 Colocarei essa foto aqui em nome da minha autoestima e da minha blusinha (que não dá pra ler, mas está escrito Love Yourself). E também porque essa selfie deu tão certo que i'm soft (e nem sou fã de selfie e nunca acho uma foto boa, pelo amor da Deusa). Um fato: algumas fotos tiradas de você mesma (selfies hein?) lembram certos moods e momentos que podem te fazer bem de novo – isso revendo a imagem semanas ou dias depois. Nem que seja 10%. Não é uma garantia, mas acho que você meio que se desafia a se olhar com mais carinho. Além disso, recorda o ponto da vida que ela foi tirada e isso pode te dar força. Tenho tirado mais selfies justamente por causa disso. A memória afetiva, sabem? E saúde mental inclusive.❣️ Enfim. Eu amei essa minha foto, com licença. 🌟💛

Uma publicação compartilhada por Stefs Lima 🔮 (@heyrandomgirl) em

 

É fato que muita coisa muda quando o uso das redes sociais passa a ter intenção. Pode ser falar sobre livros, por exemplo. Ou sobre restaurantes que você se apaixonou. O que não necessariamente abdica a selfie, claro, mas você, de algum modo, não estará presa a um tipo de foto. De quebra, não se prende tanto a aparência.

Isso, se você se policia negativamente. O que acontece comigo vez e outra. Daí, eu preciso retificar esse sentimento e ver o que acontece. Eu sou muito minha autopoliciadora.

Depois da mencionada selfie, eu tirei outras selfies. Não muitas, pois eu adotei a questão da intenção. Do timing. O sentimento que hoje me move para o registro é o momento em que vivo. Eu estava bem? Foi legal? Foi marcante?

Claro que nem sempre somos feitos de positividade. Houve uma foto que postei unicamente para eu me lembrar de quem eu sou devido a um acontecimento que tinha me feito chorar no dia anterior e me impedido de dormir direito. Uma foto de outro dia, de outro momento, de outro marco, que serviu para aquele instante em que eu me sentia devastada. Eu quis me ver em um tom mais leve. O sentimento que eu precisava em tal entretempo. O sentimento que eu precisava recordar e que inspirou outro tipo de olhar que, por vezes, é falho: gentileza.

Um processo que ganhou inspiração graças a uma matéria que conta o poder que uma jovem encontrou nas selfies para lutar contra a depressão. E eu vi que eu poderia tornar as selfies mais pessoais. Mais intencionadas. Lembretes de dias bons ou ruins ou os dois.

Muito se fala que as redes sociais são tóxicas, mas elas podem nos ajudar também. Eu acredito nisso ou nem estaria aqui. Ou nem me depararia com a história acima, que me inspirou um novo olhar sobre meu feed no Instagram. Uma história que diluiu o padrão selfie de querer mostrar somente o “lado decente”.

Hoje, eu posso mostrar uma roupa, não pelo estilo, mas porque me senti muito bem dentro dela. O mesmo para uma faixa que achei demais no meu cabelo e que confrontou um ínterim de tempo em que eu acreditei que esse acessório não era para mim.

Essa história mudou minha percepção e traduziu os motivos de eu me sentir tão insegura sobre selfies. Era tudo a questão de aparência. O que não é um voilà, pois esse fato sempre esteve além das entrelinhas. De certo modo, a gente finge que não, pois só queremos a “foto decente”.

E a “foto decente” tem a ver com aparência.

Antes de publicar uma foto minha, eu me pergunto se me sentirei saudável ou segura ou confortável. Pergunto o pretexto. Eu não me sentia bem e nem segura nas selfies antigas do meu Instagram. Soava fake e eu não curtia minha aparência em vários momentos. As poucas que foram publicadas envolviam o conceito do “foto decente”. Um conceito bem vazio, se querem saber.

O que abre para o efeito selfie muito igual a do espelho: ela exige que você se olhe. E todas as vezes que você se olha pode não haver a compreensão de que se viveu um momento legal, mas sim de crítica e de policiamento. Noção que te bota para baixo e que te faz crer que fracassou no dito mínimo: por que diabos eu não sou bonita o suficiente para ter uma selfie legal no meu feed?

O que aprendi é que selfies são como blush: somente aparentam que você tem a carinha saudável quando isso pode não ser verdade. É mera camuflagem na maioria dos casos.

Assim, adotei o norte de tirar uma foto quando eu quero guardar o sentimento e o significado do momento na minha vida. Não sei bem como explicar isso, mas é muito mais que estar em um lugar pela primeira vez, por exemplo, e querer tirar foto em todo canto.

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Um dia, contei para minha psicóloga que eu achava a vida de alguns artistas muito fácil. Eles me pareciam confiantes em expor seus trabalhos e determinei que estava aí algo que eu não conseguia fazer. Ao dividir isso, notei que, das selfies, eu passei a viver a pressão de não ser como aquelas pessoas.

Da aparência, meu jogo mudou para medir meu sucesso com relação ao que via na timeline. Vinha a sensação de que parei no tempo. De que estou velha demais. Algumas noções que eu sei que não preciso ter, mas é só eu abaixar a guarda que elas vêm. Com os dois pés no peito para afirmar o que eu não preciso ouvir. Meramente porque cada um tem seu tempo.

E, claro, porque metade é mentira.

Agora, toda vez que apareço no Instagram, eu tenho que relembrar que faço o que faço por mim.

Como as selfies. Quando eu vou revisitá-las, não quero julgar minha aparência, mas lembrar de suas origens. Mais precisamente, do que existia no background e que me inspirou a posar.

Hoje, cada foto é um entretempo a ser lembrado. Um frame de segundo que eu saberei exatamente como eu me senti. Com quem eu estava. E o motivo de tirá-la.

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Para além da intenção, tirar fotos de mim mesma tem me oportunizado a chance de realmente me ver. Ver como é meu cabelo, como fica os óculos na minha face, o tom do batom, a roupa. Não por julgamento, mas reconhecimento. Nem sempre temos tempo de ficar na frente do espelho, então, uma foto basta. Seja por você se sentir linda demais. Seja por você estar triste demais.

Falando assim, parece que é muito fácil e sei que não é.

Recentemente, tirei umas fotos para um projeto de um amigo e foi esquisito. Eu tenho grandes adendos ao me ver como o centro das atenções. Só no final que me soltei, mas o sentimento de que fracassava não quis sair de mim. Quando as recebi, eu me policiei e me senti ainda pior depois. Botei defeito até nos meus dentes. E a missão era simples: escolher as melhores.

A denúncia de que fui muito dura comigo veio na escolha de 5 fotos. De uma leva de 40. E só escolhi mais porque esse meu amigo questionou e daí eu fui mais leve no round 2.

O que quero dizer com isso? Bem, nem todo dia é de autoaceitação. E tudo bem.

Voltando às selfies, elas realmente podem inspirar um olhar sobre você. Elas te dão a noção de quem te acompanha todo dia. Você se abre e foi muito difícil para mim, porque eu me sentia boba segurando a câmera para tirar minha própria foto – e tenho vergonha de pedir para alguém se prestar a esse papel por mim. Todas que tirei no ano passado envolve momento + sentimento. Um mix que inspira a me botar até diante do espelho para bater foto (um evento raro).

Foram poucas as fotos que eu tirei em 2018, mas cada uma representa a evolução de uma história. Da minha história. Elas me ajudam a me ver de verdade e a enquadrar o sentimento além de uma legenda (sempre enorme). São selfies do bem. Para o meu bem. Para cultivar meu amor-próprio e minha autoestima. Nem todo dia dá certo, mas, colocando uma intenção, esse processo tem sido mais fácil.

No fim, tudo que se precisou para eu dar o primeiro passo foi me esquecer do peso da aparência. Da ansiedade de saber se alguém comentou. Ultimamente, eu vejo tudo que é meu, e que está nas redes, como somente meu. O ato de publicar para mim e não para os outros (o que não deixa de ser o pensamento correto). Não na maldade, mas para me afastar das emoções ruins. Da tensão de me perguntar o tempo todo se está bom o suficiente.

Obviamente que há dias que essa condição falha. Em contrapartida, eu aprendi parte disso na terapia. Apertar o publicar e deixar fluir. A grande questão nem sempre será se você está com a melhor roupa ou maquiagem, mas sim do que vem depois: policiamento ou apreciação pessoal? 

Eu recomendo a apreciação pessoal. Simplesmente porque você sempre será mais do que vê!

★ Mood de cada foto ★

★ 1.: Feliz da vida com o cabelinho novo.
★ 2.: A foto de outro dia que serviu para outro em reflexo do dia anterior a esse que morri de tanto chorar. Esse foi o dia em que eu conheci o Farol Santander e eu estava de férias. Minhas companhias foram dois serumaninhos magníficos e eu me diverti demais. Lá no topo do Farol há uma sensação de liberdade incrível e que me fez muito bem.
★ 3.: Depois do almoço no job e eu estava amando… Isso mesmo, o meu cabelo! Só depois eu me toquei que praticamente virei plano de fundo do cenário.

 

Imagem: Min An (via Pexels).

Stefs Lima
Jornalista, fundadora do Contra as Feras e ex-líder de um Capítulo Local do movimento internacional chamado I Am That Girl. Vê a escrita como superpoder de criação e de comunicação capaz de tornar o mundo melhor.
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