07 mar 19
Prólogo: 2018 e a minha batalha Contra as Feras

Eu sempre fico meio chocada com a minha mente que vira e mexe se esquece das coisas. Não é um dito problema de memória (ao menos não que eu saiba), mas a razão é que eu sou uma humana que não para de pensar um só segundo. Por pensar demais, coisas se empilham, competem uma com a outra, e não há foco que resista por tanto tempo diante desse turbilhão mental.

Uma das coisas que acabou perdida nesse turbilhão mental foi o tema de 2018: a batalha Contra as Feras. Escrevendo este texto, eu não tenho a menor ideia de como pensei em desenvolvê-lo ao longo do mencionado ano. Tudo que sei é que intencionei uma campanha e ela não aconteceu.

Meramente porque eu não fiquei superativa neste site. Ou em qualquer outro projeto pessoal.

De todo modo, não significa que não rolou uma batalha Contra as Feras. Rolou, mas no meu backstage. E, quando fui atrás de lembrar o tema de 2018, fiquei chocada!

Agora vocês entendem como meu esquecimento, às vezes, me impacta.

Eu sou consideravelmente esquecida e minhas intenções de cada ano entram nesse esquecimento. O que acho ótimo, pois não fico bitolada. Com esse desprendimento, a coisa toda flui, sem eu me meter no meio, e o resultado chega quase sempre no “aconteceu como jamais imaginei”.

Um dos resultados foi: voltei mais intencionada a compartilhar as minhas tretas porque eu vivi minha intenção de 2018. Sem me dar conta. Mas, antes de eu chegar nessa intenção (de 2019), preciso contar um pouco sobre a minha batalha.

Uma batalha de tema: eu vs. eu. Exaustiva, acreditem. Porém, teve (e ainda tem) seus louros.

Explicando: 2018 apresentou um ringue que eu nunca me inseri, mas estava inspirada a fazer parte dele. No caso, a terapia. O ano de 2017 virou e eu senti que precisava de apoio especializado. E, uma vez encontrado, passei a lidar com os demônios que coloquei uma pedra em cima.

Mais precisamente aqueles que terminaram no tártaro da minha mente. Aqueles que apenas achamos que esquecemos – sendo que, vira e mexe, eles retornam. Daí, nos esforçamos para botá-los no lugar.

O processo de busca não foi difícil, pois eu estava decidida a ter uma psicóloga em 2018. E, quando eu tenho foco, o processo se desdobra como tem que ser. Por outro lado, não foi rápido. A busca começou em janeiro e eu dei vários rolês até encontrar a minha luvinha perfeita. Aquela que me identificaria. Algo que só foi ocorrer no começo de julho. Bem no início da Copa do Mundo.

Antes disso, eu tive que trabalhar a real verdade de que eu teria que falar. Não que não tivesse conversado com as profissionais que encontrei e abandonei (uma eu larguei porque eu saía da sala me sentindo pior, sério), mas, por algum motivo, eu não conseguia desenrolar. Eu falava demais.

Processo que me fez perceber que eu queria uma troca de duas vias. Eu não queria ser somente ouvida. Eu tive a experiência de escuta e foi horrível. Parecia que a profissional não tinha o que dizer além de sorrir e de acenar para mim. Por favor, não. Só me deixou na bad, sério! Saía pensando que eu não tinha solução ou que meus problemas eram pequenos para serem tratados.

Percebi também a necessidade de ter um objetivo. Isso é importante, penso eu, ainda mais para quem tem gavetas lotadas de coisa ruim para contar. Foi só eu fazer isso que me senti menos tensa e minha psicóloga foi encontrada.

E houve um timing sim em que eu acreditei que não encontraria mais essa pessoa. Acreditei por uns bons meses que era um sinal de que eu não precisava frequentar a terapia. Eu estava errada, porque, depois de eu dar uma desencanada, a psicóloga certa veio. E veio na hora certa!

━━━ ❤ ━━━

Para ter sucesso nessa trajetória, que agora tem 8 meses, eu reconheci duramente que não dava mais para manter meus problemas na gaveta. Nem muito menos lidar com tudo sem nem tocar na ferida. Daquele jeito de doer ao ponto de você despertar. Negar, ou não trabalhar problema X, era tudo o que eu fazia até esse momento de glória chegar. Meu sistema se acostumou a esse processo.

Muito desse meu negar vem do fato de que nunca compreendi alguns desdobramentos que me ocorreram na adolescência. Desde aquele tempo, traduzi minhas dores com achismos. Soava o suficiente, mas eu sempre caía nos mesmos padrões, ou dava de cara com outros, para camuflar a pane no sistema. Nunca deu certo. Criou-se um ciclo vicioso que não me ajudava.

Vejam bem: quando eu achei que tinha controle, o transtorno alimentar me disse olá.

E achei que estava tudo bem, sem saber que vivia com um transtorno alimentar naquela época.

Com várias coisas não lidadas, cheguei ao meu limite. Processo que foi ganhando forma em 2015, ano que me abriu a porta para eu entender finalmente um dos pontos que dizimaram minha inocência, o motivo de ter alguns gatilhos e como eu ainda respondia a isso e mais um pouco.

Os anos se passaram e era nítido que eu não dava mais conta. Não dava mais para crer que eu tinha a capacidade de regenerar as feridas mais profundas e as cicatrizes mentais mais latejantes por conta própria. Não quando era evidente que tal processo estava fora da minha alçada.

Eu precisava de uma pessoa que seria o que não sou: a pá que desenterraria o que mais doía. Ação que me impulsionaria a me sentir bem (essa era a esperança) e a vivenciar uma real recuperação. Além disso, me ensinaria sobre o padrão de vitimização – que rola mais na minha mente e tem horas que o negócio fica impossível de conter. De me sentir sempre menor que tudo e todos, e assim por diante.

Não dava mais para ser a pessoa que reagia do mesmo jeito ao mundo externo. Que se prendia demais no tártaro de seus pensamentos. Decisão que transpareceu o desejo de querer um viés diferente para mim. Algo que não conseguia mais ver. E, quando achava que estava dando certo, eu caía no padrão de repetição.

Há certas coisas que não resolvemos por conta própria. Não dá! E eu tive que sair desse pedestal. Quanto mais eu acumulava perrengue, mais sintomas se criavam dentro de mim. Um processo de 10 anos, repleto de acúmulos traumáticos que eu acreditei que tinha controle.

Por isso, acreditei que suportei tudo. Principalmente quando penso (ou pensava) que há pessoas que passaram por algo pior. E ver as coisas com essa perspectiva é errado, pois você minimiza o que sente. De quebra, você começa a enterrar seus problemas por achá-los desimportantes.

Eu mesma.

Ao entender que não dava mais para investir na mesma estratégia, me rendi. E aprendi que rendição não é desistência. É pedir ajuda. E isso foi um dos meus maiores méritos, pois nunca fui adepta de pedir ajuda. Anos de traumas me tornaram a minha “própria psicóloga”, junto com o Pinterest, o que, evidentemente, não deu certo. Eu não lidava comigo mesma dentro do caos.

Eu me destruía no caos.

E eu queria entender esse caos e não me deixar ser mais destruída por ele. Algo que, hoje, aprendi que é uma questão de elaborar de novo e ressignificar (palavras da minha psicóloga).

Eu precisava de outra pessoa para entender essas partes da minha vida e esse entendimento não viria pela boca dos meus amigos. Eu precisava de uma perspectiva profissional, pois, do meu ponto de vista, esses capítulos viraram leitura viciada. Incitando os mesmos modos de operação. Mantendo o mesmo distanciamento de tudo. Me comprometendo toda vez que a guarda abaixava.

Se pensarmos bem, achamos que lidamos com tudo. Às vezes, por nem lembrarmos. Mas, mudando o ângulo, o que rolou foi uma iniciativa do cérebro em jogar tudo em gavetas mentais e passar a chave. É uma proteção, claro, mas que não anula os períodos de desordem e de desorientação.

E isso piora quando a pessoa não aceita a própria vulnerabilidade. E eu vivi anos sendo esse impasse comigo mesma. Afinal, eu “aprendi” a ser independente muito cedo. Com isso, uma dita autossuficiente para lidar com todo tipo de drama pessoal – até com os traumas. Uma ilusão, né?

━━━ ❤ ━━━

Meses de tratamento depois, eu sentei para checar este site e preparar conteúdo novo. Não foi fácil, porque percebi que eu mudei. Tanto interna quanto externamente. A minha versão de 2015 se uniu com a de 2018. Ao menos, é assim que vejo, criando a versão que vos escreve. Nova em folha e que se viu perdida na hora de resolver se manteria esta casa ou se a largaria.

Nisso, voltei ao tema de 2018 e me lembrei da batalha Contra as Feras. Do processo de ter mudado a URL para Contra Feras (tirei o “as” porque não curti esteticamente). De certa maneira, eu me abri verdadeiramente para essa luta e acredito que seria interessante compartilhá-la com vocês.

━━━ ❤ ━━━

A decisão de manter este site vai além do fato de que não o usufruí direito desde seu nascimento. Eu o criei para contar histórias. Para ser meu outro braço sobre pautas que não davam para ser comentadas no Hey Random Girl (pois outro viés de conteúdo). Eu só precisava revisar o que vivi em 2018 e me surpreendi por ter vivido dentro da intenção que preguei nesse mesmo ano.

Mas há uma verdade: eu fui desanimando em 2018 por me sentir uma falcatrua. Desde mentir para eu mesma sobre meu job ser “tudo” até garantir que estava sob controle da vida. Inclusive, emocionalmente estável sendo que, antes de encontrar uma psicóloga, lidei com novas nuances da falta de equilíbrio. Suportei muitos picos emocionais que me recordaram de 2016. Foi difícil transitar, mas eu venci. Eu salvei muito de mim nesse ciclo.

Agora, eu tento tirar os espinhos mais insistentes. Aqueles pequeninos que só saem com uma bendita pinça.

Eu tentei manter meus projetos em dia, mas o 2º semestre de 2018 foi definidor. Ele veio com tudo para testar meus limites – e a quantidade de lágrimas que ainda existiam em meu organismo. Meu tratamento começou em julho, mas foi em agosto que a coisa toda desencadeou. E eu simplesmente não tive onde me segurar. Era a hora de parar de tentar manter tudo trancafiado na gaveta. De não abrir mão do que precisava sair – pois eu, supostamente, não “conseguia” me ver sem a parte ruim.

Outubro de 2018 foi o mês das dores intensas e novembro foi a época das minhas férias. Tudo que ouvi nesse ínterim foi que eu parecia mais leve e, de fato, eu começava a ficar. Eu começava a compreender que nem sempre eu posso me ajudar por conta própria e que trauma tem sim caminhos de resolução – e, deixando claro, isso não acontece de uma hora para a outra.

Nesse entretempo, eu vi que certas feridas não batiam com as minhas próprias traduções. Independentemente disso, é real o fato de que eu posso sim ter uma vida boa sem todo o conteúdo ruim. O conteúdo ruim não vai embora, mas eu sou a própria responsável em manejar esse leme. Ser maior que ele para elaborar um novo caminho e ressignificar os próximos passos.

━━━ ❤ ━━━

Graças aos impactos da análise (minha psico chama de análise), eu me vi sem saber o que poderia escrever aqui. Por mais que eu tenha consciência da nova Stefs, eu me pergunto quem é ela. E tenho noção de que não é essa a pergunta principal.

Na verdade, a questão é: para onde vamos?

A minha pausa foi para compreender o que mais doía e o motivo de doer. Para compreender o que essas cicatrizes geraram em mim (apesar de eu sempre ter uma consciência sobre isso e não estava tão errada). Foi um processo que exigiu muito de mim e muito do meu intento de deixar ir e finalmente deixar curar.

Novamente, não quer dizer que tudo se foi. Tudo ainda existe. Agora mais vívido porque foi remexido. A real solução que eu tenho hoje vem do que escuto sempre da psicóloga: elaborar e ressignificar.

━━━ ❤ ━━━

O Contra Feras nasceu das batalhas que enfrentei ao longo de um período que foi definidor na minha vida: 13/14/15 anos. Minha psicóloga ficou de olhos arregalados (ainda escuto ela dizer muita coisa né?) com o tanto de informação que lancei na primeira sessão. Saí de lá me perguntando como aguentei sozinha e ainda estar aqui. Tentando ser alguém na noite, ou algo desse tipo, sabem? Desistir é atraente, não mentirei!

Mas minha psicóloga parece que me entende e eu a chamo na intimidade de meu universo. Assim, eu tenho para mim que ela é a voz do universo na minha vida. Um universo exausto de me dizer que “não sou qualquer pessoa” e que eu tenho meu valor. E eu devolvo com sarcasmo.

Certas coisas não mudam, percebam!

O que ganhei para compreender meu caos foi a metáfora das gavetas. Eu dividi tudo em gavetinhas, sem intenção de revisitá-las. Gaveta do abuso. Gaveta do transtorno alimentar. Gaveta dos péssimos relacionamentos. Gaveta da família. Gavetas. Minha análise é quase literária, acreditem.

Digo isso porque minha psicóloga sempre quer saber o que eu estou lendo. E eu sei que ela associa ao momento, pois eu mesma faço isso. É ou não é o universo, gente?

Enfim. Viver essa batalha Contra as Feras foi doloroso sim. De vez em quando ainda é. Porém, segue gratificante, pois me descubro mais no processo. Conforme eu ia me resolvendo com o que transbordou no tratamento, eu fui notando as mudanças em mim.

Não menos importante: eu descobri que o que eu achava que doía mais era o que doía menos.

Eu tenho mais noção da necessidade de autocuidado. De parar e respirar. De sair quando a necessidade vem. Ainda tento aceitar a solitude, porque eu tenho problemas com essa parte (e sempre achei que não). Do que me faz sentir bem ou mal. Das razões que me feriram quando eu vivi esse ciclo e os resultados dos depois que definiram demais quem eu sou – e eu abracei tudo de braços abertos. Eu gosto mais de mim, quero meu melhor, e tenho orgulho de onde cheguei.

Não quer dizer que os dias ruins tenham sumido. Não quer dizer que todo dia estou leve e sem drama. Não quer dizer que eu ganhei uma imensa autoconfiança. Não mesmo. Há dias e dias, como na vida de qualquer outro ser humano. A questão é reaprender a lidar com todos esses picos.

Correr atrás de terapia foi o melhor presente que me dei em 2018. Um ano conturbado de vários vieses possíveis e inimagináveis, como as Eleições. Foi um ano agridoce, mas, por outro lado, houve muito crescimento e amadurecimento pessoal na minha vida. Há muita coisa que aconteceu, que não dará para contar tudo neste post, mas um dos resultados foi redescobrir o meu valor.

(e deixa eu contar que nem tudo está lindíssimo já que sempre duvido disso).

━━━ ❤ ━━━

Ficar fora deste site rendeu culpinha porque eu não gosto de deixar jobs na mão. Ainda mais quando são de minha autoria. Mas foi melhor que fazer um trabalho nas coxas.

A única coisa que consegui mudar efetivamente foi o nome deste site. De Bela e as Feras fomos para Contra as Feras. Um nome que vivia zunindo no fundo da minha mente e que se transformou em uma realidade. Que deu um tom de fortalecimento para minha intenção de 2018 – e que, hoje, vejo com outro significado que espero contar também. Eu acredito muito nessas intenções, mesmo esquecendo-as – e é bom ter a surpresa da revelação.

Eu jamais esperei me ver segurando um escudo contra as minhas feras. Na minha mente, eu já fazia isso. Porém, não tinha uma ação em que eu fosse testemunha. Eu acreditei, piamente, que eu estava bem, mas vários estopins disseram que eu precisava cuidar do meu interior.

Embora eu não tenha desenvolvido o tema de 2018, eu tomei a licença para cuidar de mim. Eu precisava cuidar de mim e agora estou de volta. E o que me resta é contar para vocês como foi.

Como foi essa batalha Contra as Feras.

Feliz 2019, preciosos! ❤

━━━ ❤ ━━━

Crédito da imagem: Eberhard Grossgasteiger

Stefs Lima
Jornalista, fundadora do Contra as Feras e líder de um Capítulo Local do movimento internacional chamado I Am That Girl. Ela vê a escrita como superpoder de criação e de comunicação capaz de tornar o mundo melhor.
Recomendados para você
Deixe sua opinião sobre o post
SIGA NO INSTAGRAM
@contraferas