13 set 18
Um papo sobre o caminho para uma verdadeira intimidade

Quantas vezes pensamos em ser quem somos e retrocedemos? Parece que há sempre um erro em nosso sistema que nos impede de ser, de expressar e de agir como queremos. De tornar a nossa vida totalmente uma verdade a base do que acreditamos. Parece um crime expor por aí a parte genuína do nosso ser tão quanto nossas crenças e valores. Tão quanto nossas ideias, nossos gostos, e tantas coisas, como se quem somos fosse capaz de ofender alguém.

É um entrave diário para muitas pessoas que colidem com outras que incitam os mais variados sentimentos negativos. Como a vergonha.

Vergonha do que pensarão de você.

Vergonha do que você mesmo pensará de si mesmo.

Vergonha. A vergonha de expor quem você nasceu para ser.

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“Quanto mais plenamente vivemos em nós mesmos, mais impacto teremos. A atuação pode nos obter o aplauso que queremos, mas assumir o risco de sermos nós mesmos é o único caminho para uma verdadeira intimidade.” – do livro If You Feel Too Much.

 

Ao nos comprimirmos e nos sujeitarmos ao olhar do outro, passamos a viver nos moldando às expectativas de terceiros. Isso é algo que nos anula no processo porque deixamos de ser quem acreditamos para sermos aceitos.

Aceitos pelo olhar do outro.

Aos desejos do outro.

Em alguns casos, até notamos essa anulação que não deixa de ser um ciclo vicioso diário. Em contrapartida, parece que não há muito o que fazer. Afinal, precisamos nos adaptar ao meio. Sendo que, até mesmo nesse fato, não precisamos anular as camadas e as nuances que nos compõe.

Mas ainda assim anulamos. Querendo ou não.

Por essas e outras que passamos tanto tempo silenciados. Por essas e outras que passamos tanto tempo presos em nossas mentes, enfileirando um monte de “e se”… Por essas e outras que vivemos dentro de nós, o que impede os demais de nos ver verdadeiramente. De sermos verdadeiramente.

Pela anulação, nem chegamos a construir a nossa identidade. A capturar nossa identidade.

Nem muito menos reconhecer o poder da nossa voz e a influência das nossas ideias.

De tanto nos sentir reprimidos e de sermos reprimidos pelo cotidiano, indagamos se as coisas poderiam ser diferentes.

A boa é que essas coisas podem ser diferentes, mas depende de nós.

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Eu acredito que o primeiro passo é olhar rigorosamente para dentro e organizar a bagunça.

Não é fácil. Eu mesma sou viciada em minha bagunça.

Mas para tudo há um jeito. É o que dizem e é sempre bom crer nisso.

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Entre os anos de 2014-2016, passei um tempo recorde em minha própria companhia. Comecei a me questionar sobre N coisas. Coisas que nem sequer imaginei que seria capaz de questionar. Comecei a me cobrar por outras N coisas, o que me fez perder as forças gradativamente. Foi difícil sair de lá, mas eu saí. Exausta, mas saí. E vi um novo percurso que dependia de mim para transformá-lo.

Um percurso que, na escuridão, jamais pensei que conquistaria.

Eu era puramente o fundo do poço, mas consegui sair de lá. Não foi um processo rápido e eu ainda vivo esse processo de regeneração. Hoje, faço terapia para tentar me reconstruir e seguir adiante.

Esses anos mencionados, especificamente 2016, me quebraram demais. Vivi entre paredes que consumiram minha energia. Que me deixaram centralizada por tempo demais em minha mente. Testemunhei o conflito em que se realçou camadas e nuances que não eram verdadeiras sobre mim. Vi-me se distanciando das pessoas e das coisas que eu amo. Fui me descaracterizando no processo graças às cobranças de mim para mim. Fui me fechando do meio e acreditei que essa era a melhor solução. E, obviamente, não era.

Demorei para me reencontrar em meio a um sofrimento que eu não quis que ninguém soubesse. Tranquei-me graças à famosa expectativa do outro e às minhas expectativas. Era muita coisa para lidar no colo de quem não tinha metade da vida no lugar. De quem já nem conseguia se tratar com uma dose de confiança. De quebra, eu não queria passar pelo tribunal das pessoas. Não queria anunciar que não cumpria ao menos uma expectativa da vida adulta.

Nesse ínterim de tempo, pensei em como eu seria vista pelas pessoas e pelo mundo em si. Eu não queria ser vista como fracassada, o que automaticamente anulava todas as minhas conquistas.

E é injusto pra caramba fazer isso com você mesma.

Mas eu fiz e ainda segui fingindo que estava tudo em seu devido lugar.

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Eu sou a pessoa que acredita que somos uma assinatura única, que não estamos de passagem e que temos um propósito. Mas tudo isso foi dizimado de mim e achei que jamais retornaria.

Em 2016, eu não tinha a menor ideia do que viria depois. Não tinha a menor ideia de como queria ser vista pelo mundo quando estava com uma imagem extremamente deturpada de mim mesma. Eu, literalmente, não estava suportando ficar em minha própria companhia. Não estava suportando ficar embaixo da minha própria pele. Foi quando eu acreditei como era horrível me ter como parceira. Como era horrível ser eu. Outras injustiças que pensamos quando tudo é breu.

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Passada essa leva pesadíssima, percebi que estes anos também representaram um tempo de extrema intimidade comigo mesma. Foi um processo desconfortável porque, uma vez em um lugar ruim, a última coisa que você quer é estar tão em contato consigo mesma. Há a repelência que não dura tanto por você ser sua própria companhia. É uma situação “meio que obrigatória” e se você não está se curtindo, bem, não deixa de ser um martírio. É como estar com quem você não gosta.

Não são todas as pessoas que cedem a si mesmas a intimidade que emenda na busca de autoconhecimento. Um processo que pode ser automático, como ocorreu comigo. Jamais pensei que descobriria muito sobre mim depois de tantos anos enfiada dentro de casa. Muito desse tempo me trouxe até aqui e nem acredito que sobrevivi diante de tanta porcaria negativa.

Não são todas as pessoas que assumem a bagunça interior e se inspira a organizá-la. Meu processo de quebra e de ascensão custou os últimos cacos de mim e, depois, tive que recolher os mais importantes e mantê-los comigo.

Vida sem dor é uma utopia, mas há muito que se pode aprender com essas dores. Com esses sofrimentos, algo que tenho aprendido recentemente na terapia. Imagino que compreender as adversidades seja o ápice da intimidade com quem somos. Isso abre para o enfrentamento da dor.

Inclusive, para o instante de se deixar quebrar e assim rumar para o novo.

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Um ato em muitos capítulos que, mesmo que não se note no momento em que vivenciamos tudo de ruim sobre nós e sobre os arredores, é fato que essa intimidade tem seu próprio poder transformador. Um poder que nos deixa mais conscientes de quem somos. De onde dói. O que podemos evitar e o inevitável. O que podemos recuperar. Que caco manteremos para servir de lembrete daquele sofrimento que, sem dúvidas, não queremos de novo.

A intimidade com quem somos pode se expressar em uma pausa no dia. Não precisa ser apenas na dor. Pode ser em períodos de extrema luz também. Menciono os dias ruins porque foi em 2017 em que li o livro que tirei o quote que inspirou este post. Palavras que ajudaram a assoprar as nuvens condensadas, que criaram crateras, em uma mente ainda muito abalada pelo 2016 das trevas.

Às vezes, a gente só precisa parar e não deixar se levar no ritmo da escuridão.

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Também não é fácil. Não acontece de uma hora para a outra. Mas, me considerando de exemplo, é possível. Eu tive que me deixar quebrar, uma experiência da qual sempre me vetei porque eu preferia ser a imbatível fortaleza. Expressar vulnerabilidade nunca foi meu forte – para não dizer meu real pavor.

Nisso, descobri que as pessoas que se prendem em todos os modos de segurança para não quebrar são as que quebram mais profundamente.

E fica o gosto de improbabilidade porque você não sabe o que será de você no dia seguinte.

Não sabe o que fazer com seus cacos, sendo que o primeiro passo é recolhê-los.

E foi difícil eu reagir de imediato.

Episódios ruins têm seu próprio jeito de nos transformar e a decisão de dar a volta por cima é sempre nossa. Não há solução – a não ser que você precise de ajuda para sair da sua escuridão. É preciso encontrar um pouco de força para se ter resiliência e encarar esses episódios ruins de algum novo ângulo. Por alguma fresta. Mudar mesmo o ponto de vista para encontrar uma saída.

Eu tive três anos em minha própria companhia. Vivendo dentro de mim. Alguns dias foram plenos. Outros nem tanto. Essa não é a parte do negócio?

Viver um pouco na introspecção para saber como nos sentimos, o que queremos, o que buscamos… Tendo esse controle de nós é possível pensar em impacto. Um impacto para nós e por nós que, trocando o aplauso sugerido pelo quote, pode rebater nos nossos arredores positivamente.

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Assumir quem somos é um desafio. Alguns conseguem. Outros não. Outros tentam.

Sou do grupo que tenta, diariamente, pois há uma intensidade em mim tão grande que sempre dá seu próprio jeito de abrir buracos de insatisfação. E não é insatisfação com o que tenho ou deixo de ter, mas comigo. Com quem eu supostamente não sou. Com o trajeto que supostamente ainda não trilhei. Na angústia, eu preciso encontrar e reencontrar o freio e assumir o leme da minha vida. Assumir esse risco de ser quem sou, pois é o único caminho para a verdade.

Para a verdadeira intimidade.

Ficar em nossa própria companhia não é fácil. Somos amigos e inimigos de nós mesmos, porém, é preciso encontrar um meio-termo. Principalmente quando tudo é puro pretume ao ponto de transformar a nossa visão em unilateral sobre quem somos. Sobre o meio que ocupamos. É um trabalho constante e permanente que, com sorte, nos moldará para quem queremos ser, o que queremos conquistar e o que queremos transformar.

É na intimidade com quem somos que descobrimos o próximo norte do nosso navio. O próximo ato da nossa vida. Uma intimidade que quebra a lupa do olhar alheio. Da expectativa alheia.

No fim, é o que achamos de nós mesmos que realmente importa. E encontramos isso na intimidade de ser quem somos. Das conversas que iniciamos em nossa própria companhia. Sem influências. Sem nada. Apenas você e você redescobrindo sua jornada e seu poder de impacto no mundo.

Ser fiel a quem somos é o melhor escudo que podemos apresentar a este mundo que segue nos rotulando e querendo o pior. O mundo é feito de escolhas e a primordial delas é nos escolher em primeiro lugar.

Sempre.

Então, paguemos com o melhor. Um melhor que começa com o cultivar do melhor que temos. Um processo íntimo, que ainda requer coragem para expô-lo por aí, mas é a partir deste caminho que se começa a reivindicar quem se é.

Corremos o risco e batalhamos contra o que nos prende. O verdadeiro ápice da intimidade.

Imagem de James Pond.

 

Contra as Feras tem apenas o intuito de gerar conversas/conscientização. Caso se identifique com alguma postagem mais direcionada/específica, por favor, busque ajuda especializada. Há atendimento nos Centros de Atenção Psicossocial – CAPS e no Centro de Valorização da Vida (CVV) – pelo site e pelo 188. Algumas universidades também oferecem atendimento gratuito/com preço acessível (e o recomendado é ligar antes de ir até o local).

Stefs Lima
Jornalista, fundadora do Contra as Feras e ex-líder de um Capítulo Local do movimento internacional chamado I Am That Girl. Vê a escrita como superpoder de criação e de comunicação capaz de tornar o mundo melhor.
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