16 maio 19
Memórias do janeiro branco + thread de tratamento psicológico

Todo mês tem uma cor e essas cores acabam se confundindo no meio de tanta informação. Cores que são distribuídas mês a mês e que servem de lembrete para uma causa em questão.

Essa singela confusão, da nossa parte, claro, vem de uma experiência que tive no ano passado. Eu estava no ônibus quando vi um banner, naqueles relógios grandes de calçada, dizendo que maio era maio amarelo. Fiquei confusa, pois, até onde sei, setembro é amarelo.

Só que aquele maio amarelo se referia à conscientização sobre acidentes de trânsito.

Por essas e outras que parece não haver concordância na relação cores vs. causas. Ao menos, aqui no Brasil. Com isso, o resultado é cada uma delas cair no limbo do esquecimento.

Ou sequer serem notadas.

E uma dessas cores é o branco. Branco que tinge um janeiro focado em saúde mental.

Já comentei sobre o janeiro branco aqui no site. Mês que visa a conscientização sobre a saúde mental e a escolha de sua cor vem de um ritual muito nosso. É com roupas brancas que muitas pessoas viram o ano, na expectativa de atrair fatores positivos no próximo ciclo. Sendo que, na maioria dos casos, as chateações vêm e parecem extremamente insuportáveis.

Inclusive, injustas.

Sem contar que, muitas vezes, não recordamos da saúde mental na virada.

Ou em qualquer parte do ano.

O que gera outros impasses que podem remeter a algum nível de ansiedade.

Esses são alguns pontos que se apresentam na véspera da virada do ano. Ou antes disso. É quando se vê que as resoluções da famosa listinha não passaram de ilusões ou não se concretizaram. E, muito disso, vem do traçar de metas muito impossíveis para sua realidade. Detalhe que pode não ser admitido por você. Ao menos, não na hora. Mas o resultado é o mesmo: age como ácido.

Vivi muito de resoluções impossíveis e me decepcionei ano a ano. Como não consegui um emprego? Como não consegui perder peso? Como? Como? E como? Um como que pode não ter nada a ver com esforço. De novo, pode ter a ver com a sua realidade. Quem sabe, pode ter a ver com o status da sua saúde mental – como não saber que tem ansiedade, por exemplo.

Como eu não consegui? Era nessa fase que o sucesso do outro me pegava de jeito. Afinal, todo mundo parecia ter muito. Conseguir! E eu? Bem, absolutamente nada. Uma mentira, claro!

Mentira? Sim! Nem tudo que traz alegria envolve ter o emprego do ano.

Sempre me indaguei quando a virada seria diferente sendo que eu pulava perguntas básicas: como eu cuidei de mim em 365 dias? O que me trouxe alegria? O que rolou de diferente? O que rolou de inusitado? E eu só passei a ver isso quando criei um pote da felicidade, que nada teve a ver com o janeiro branco. Foi uma tarefa dada para o grupo do I AM THAT GIRL e que, às vezes, me pergunto se não foi meu primeiro grito urgente de socorro.

Ou um pedido urgente para eu olhar bem para o que ainda valia a pena na minha vida naquela época.

Enquanto esse tempo é de esperança para muitos, para outros é de desesperança. Eu estive no grupo da desesperança por anos. Eu tinha muita ilusão dentro de mim e listava resoluções praticamente impossíveis. Dessa forma, era fácil reler a lista e passar o resto da noite amuada.

Amuada ainda soa suave, mas em 2016 eu perdi o controle. O ano que, ironicamente, eu criei o pote da felicidade. Porém, eu me sentia somente infeliz e está aí um ano que não quero repetir.

E, por não querer repetir, eu fui atrás de terapia. Atitude que levou o ano de 2017 para eu decidir.

━━━ ❤ ━━━

Eu acredito que mental e emocional ficam mais fragilizados nas épocas de grandes transições e de mudanças (e isso não deve ser novidade para ninguém). Mas é assim que acontece comigo ao ponto de eu ficar doente psicossomaticamente (crédito à minha psicóloga). Ficar doente marcou muito das minhas passagens de um entretempo a outro, tão quanto lidar com grandes baques. E o final de ano costumava não me fazer bem por ser o dito momento em que eu repassaria meus fracassos.

Daí eu só chorava!

Elevamos as expectativas, mas, às vezes, não nos damos conta de que muitas dessas expectativas têm outro olhar. O olhar da amiga bem-sucedida, da chefe que tem um carro zero, da prima que emagreceu, de um feed no Instagram. Queremos o tempo todo alcançar o que a sociedade diz que precisamos e valorizar a saúde mental não está no combo. Normalmente, o que botamos na lista é o que vimos na vida do outro e não pesamos a nossa realidade.

Não vemos o que é realmente possível. Fato que se interpela na famosa pressa. Pressa de ter.

Tomar consciência de si a fim de se conhecer e de se cuidar melhor é uma atenção que não será encontrada nos braços de outra pessoa ou no carro do ano. É um tipo de amor e de cuidado que só você pode dar para você mesma. Afinal, se você está bem, tudo meio que flui.

E se você está bem, acredito que um dos principais ganhos é um novo olhar sobre a vida. Porque é assim que você verá o que há em sua alçada. O que pode ser melhorado. O que pode ser seu.

Soa lindo, mas eu sei que vivemos no ciclo de que devemos mostrar felicidade o tempo todo. Postar uma foto para garantir que está tudo bem. Comprar algo caro para dizer que está tudo muito estável. Mudar o visual para dizer que finalmente se encontrou (e mudar no dia seguinte sendo que isso pode ser meras insatisfações). Várias ânsias que camuflam o fato de que não há mal algum dizer que você desceu da montanha-russa sem cinto de segurança. Inclusive, que precisa de um instante para se recompor do baque da girada final.

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Foi em janeiro do ano passado que decidi recorrer à terapia. Percurso que não ocorreu de uma hora para a outra, pois, quando 2017 chegou, eu não me sentia totalmente recuperada do murro de 2016. Algo se quebrou. Profundamente. Vi as complicações, como notar que ainda tinha vontade de ficar em casa – e parte disso vinha inspirada no fato de eu não curtir o novo job. Ainda assim, comecei a cogitar. Porém, não tinha ideia de onde começar e isso serviu de razão para eu protelar.

2017 passou de um jeito esquisito. Porém, bom. As coisas meio que melhoraram no 2º semestre graças ao novo job (esse mesmo que depois de meses eu não curtia mais). Em contrapartida, eu me via acompanhada por uma relutância que me fazia espiralar e eu não compreendia o que ainda me fazia bem/mal. Com isso, eu não conseguia mais inventar o que poderia me garantir durante o percurso.

O soco final veio em 2018 via diagnóstico da dermatologista sobre as “bolinhas vermelhas” ao redor dos meus pés. Fruto de estresse/ansiedade. Foi aí que, sob um dito alerta do corpo, eu fui atrás de terapia.

Dito porque, por mais bizarro que possa parecer, eu não fui diagnosticada corretamente. O que é positivo e negativo. Positivo porque, pelo susto, eu fui atrás de terapia. Negativo porque não se erra diagnóstico (e sei disso porque eu fui em outra dermatologista e ela nem sequer mencionou o que eram essas “bolinhas vermelhas” que sumiram quando tomei um medicamento para outra coisa).

━━━ ❤ ━━━

Apesar de, às vezes, não achar muito correto (sabe-se lá o motivo), eu ainda crio meus próprios métodos de ajuda. Contudo, depois de 2016, eu notei que nem todo pote da felicidade do universo desvaneceria capítulos que precisavam de apoio especializado.

Mas essa foi uma das formas que eu encontrei para sair do ciclo vicioso das listas e assim parar de me sufocar pelo que supostamente não conquistei. O mesmo para um diário e um caderninho em que acompanho meu humor. E os exercícios físicos (que preciso melhorar!). Embora eu conte hoje com ajuda especializada, eu ainda não me abstive de outros caminhos em busca do meu bem-estar.

E isso ajuda, especialmente, na questão da ansiedade.

━━━ ❤ ━━━

O janeiro branco me deu parte dessa consciência. Consciência que veio quando eu participei de um evento da Vetor Editora, em 2018. No caso, uma palestra sobre suicídio e muito se disse sobre arrumar o nosso avesso. Procurar ajuda. Conversar. Não se deixar encolher, porque nem todos os espaços são para nós. Foi um momento extremamente inspirador apesar do tema consideravelmente pesado e com gatilhos. Foi um dia muito bom, que me deu mais luz sobre cuidar do mental.

Cuidar do avesso.

Mas, como acontece muito na minha vida, esse instante se evaporou da minha mente. Trabalho, insatisfações, falta de vontade de sair de casa. Foi aí que eu percebi que ansiedade existe. Não em um nível que atrapalha totalmente minha vida. Porém, é influente para eu angustiar.

Foi em janeiro mesmo que eu comecei a ir atrás de terapia (e contarei isso com mais detalhes em um post futuro). Não por causa desse evento, mas do mencionado episódio com a dermatologista (que foi propulsor). Apesar dos dias bons, os dias ruins me lembravam do quanto era exaustivo lutar comigo mesma. Daí eu decidi que não dava mais para viver com a minha bagagem cheia de coisas ruins sem endereçá-las propriamente. Ou tentar me reajustar toda hora sendo que eu não tratava nada.

Saber que eu tenho alguém para conversar, uma vez por semana, me faz bem. Tem dias que eu saio chorosa, que não quero comparecer, mas eu adotei o pensamento de que minha psicóloga é a voz do universo que tanto acredito. Ela está ali para me apoiar e me nortear. Consciente de que o restante do trajeto cabe a mim cruzar ou retroceder.

Em breve, completarei 1 ano de terapia e um bocado de nuances se tornaram claras. É bizarro, mas de um jeito positivo. Não que agora eu esteja curada. Nada disso. Eu tenho um acúmulo de mais de dez anos de porcaria adolescente e isso me comeu por inteiro ao longo desses mesmos anos.

Sempre achei o tema terapia interessante, mas nunca considerei como algo para mim. Sem contar que eu não sabia “onde encontrar” alguém que me atendesse e a moral é: tem que procurar.

Eu encontrei a pessoa certa só em julho e estou com ela desde então.

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De janeiro a julho, eu vi muito conteúdo que retratou alguns dos meus traumas. De forma positiva e que me impulsionou a não desistir. Ainda mais quando fui me dando mais conta do quanto fui furtada ao longo da vida. Sexualidade. Identidade. Autoimagem. Amor. Autoconfiança. 2018 entrou como o início do meu reajuste mental e emocional, e, quando abri meu pote da felicidade, e depois que limpei meu guarda-roupa todo, antes da virada desse mesmo ano, eu percebi que mudei. Percebi que eu me reconheço um tanto mais e que estou no caminho para me encontrar de verdade.

E o que eu me vi querendo, mesmo que inconscientemente, é isso: resgatar meu poder tomado. Reunir esses entretempos em uma concha de retalhos e entendê-los puramente. Dá medo? Sim, mas alguns pontos precisam ser chafurdados para eu melhorar.

Sempre olhei para o meu passado por cima do ombro e buscar terapia também foi um ato de dizer que eu precisava encará-lo de verdade. Independentemente da dor que eu poderia sentir no processo. E foi bastante dor, viu? As lágrimas então nem se fala!

É importante reconhecer o quanto a vida te machucou e assim tentar retomar controle de tudo isso. Um controle do bem, claro, de forma a resgatar o poder tomado. Obviamente que terapia é de cada um. Nem todo mundo confia. Além de ser caro, o que eu acho absurdo, mas tudo bem.

Apesar do meu “diagnóstico” com a dermatologista, o que me moveu verdadeiramente para a terapia foi o abuso que eu sofri na adolescência. Foi meu ponto de partida que abriu para todo o resto, criando entremeamentos que me chocaram demais. O que eu sempre achei que era verdade se revelou como resposta a um acontecimento, gerando socos semanais.

Por muitos anos, vivi do achismo do tudo bem, tudo nos conformes. Achismo porque eu emanava algo que não tinha certeza lá dentro. Isso gera o descontrole das ervas daninhas que se aprofundam. Ervas daninhas que tomam o espaço até você não se reconhecer mais, pois cada uma transforma seu interior de um jeito que parece inalterável. Permanente.

Sei que há ainda muito julgamento sobre terapia, mas, desde que eu comecei a minha experiência, não consigo mais não achar esse cuidado relevante para todo mundo. Para quem tem depressão, ansiedade, traumas, pessimismo, ocupou o lugar da mãe quando era para ser só filha… O recomendado para tirar todos e outros nós internos é sim uma ajuda especializada.

Há quem diga que isso é coisa de adolescente e tudo mais, mas, eu, com meus quase 33 anos, fui atrás de me cuidar mentalmente. A idade que todo mundo acha que você tem que ter tudo resolvido. Ter carreira e ser mãe. Honestamente, sem saúde mental no lugar eu não sou nada.

Nesse quase 1 ano de terapia, eu aprendi que, assim como se amar, cuidar da mente também é revolucionário. E uma coisa aqui está interligada a outra.

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Antes de janeiro ser janeiro, o janeiro branco vem com a iniciativa de nos fazer pensar a que tantas anda nossa saúde mental, emocional e até mesmo física. Se terapia for uma possibilidade, faça. Mas tenha em mente que os resultados dependerão muito mais do paciente. É a gente que precisa falar no fim das contas, pois a salinha é apenas o local de escuta. Os conselhos vêm, mas também recai em nossas mãos o que fazer com cada um deles.

O conselho que mais escutei foi ressignificar. Tudo que eu passei roubou muitos significados da minha vida, como meu próprio aniversário. Com o tempo, se tornou fácil ser odiadora de tudo, porque me poupava de ser presente e de explicar o motivo. E sabem? Isso também cansa.

Saúde mental é um cuidado diário que é de dentro para fora e vice-versa. É um tempo que você cede ao seu cuidado. A se conhecer melhor. A ser corajosa em desbravar o que há de mais assombroso dentro de você. A ver camadas que podem ser nada mais que achismos.

Saúde mental também é um processo em que você tem que escolher a si mesma todo santo dia. E nem sempre é possível, pois não é a todo instante que mente, corpo, coração reagem a mesma canção.

O que traz outro comentário: muitas pessoas desistem da vida na virada do ano. Muitas porque não contaram com espaço de escuta. Muitas porque viram suas dores serem minimizadas. Muitas porque se sentiram terrivelmente sozinhas e desimportantes. O janeiro branco também cultiva essa atenção, inspirando um novo olhar para a vida que temos. Para a vida ao nosso redor.

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Para inspirar, deixo uma thread com atendimentos psicológicos gratuitos. Basta clicar no tuíte para carregá-la de modo completo: 

 


 

★ Cuide da sua saúde mental, ok? Vou dando diquinhas sobre nos posts futuros.

 

Imagem: Danielle MacInnes (via Unsplash).

Stefs Lima
Jornalista, fundadora do Contra as Feras e ex-líder de um Capítulo Local do movimento internacional chamado I Am That Girl. Vê a escrita como superpoder de criação e de comunicação capaz de tornar o mundo melhor.
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