21 ago 18
Depressão: Estereótipos – Parte 1

Demorei muito para decidir se escreveria esta coluna usando um pseudônimo ou assumindo minha real identidade. Foi um debate interno que levou alguns dias, mas decidi que seria preciso fazer dela algo pessoal já que este texto é verídico. Isso significa pôr a cara no sol.

Prazer, meu nome é Mylene.

Quando falamos sobre depressão, estamos acostumados a pensar em mil frases prontas. Isso é o que chamamos de estereótipos. As frases prontas e os “conselhos” que envolvem o tema geralmente transformam a doença em algo fútil. Como se fosse simplesmente um estado de espírito onde a pessoa escolhe ficar triste para chamar a atenção.

Apesar de ser um tema que está em alta nos meios de comunicação, grande parte das pessoas ainda não compreendeu a sua seriedade. Por isso, ainda se carrega a ideia fixa de que depressão é coisa de gente louca ou de gente desocupada.

A fantasia que gira em torno de uma pessoa com depressão é tão forte que, grande parte das vezes, o paciente entra em negação e decide esconder a situação para não ser vítima de comentários e/ou ser tachado de preguiçoso, de fresco, de desocupado. Apesar de se pensar que esses termos não mudam em nada, a realidade é totalmente diferente.

Aos 15 anos, fui diagnosticada e consigo lembrar perfeitamente da expressão da minha mãe quando o médico disse: sua filha tem depressão. O choque e o horror se misturaram, pois, em 2004, falar que alguém estava deprimido era basicamente dizer que a pessoa estava louca. A ideia de que eu precisava frequentar uma psicóloga e um psiquiatra era absurda, e meus pais associaram meu diagnóstico a frase: ela está fazendo pirraça.

É claro que não culpo meus pais por nada. Como disse, em 2004 a mentalidade era outra e as pessoas ainda não falavam tão abertamente sobre o assunto. Não era comum você sentar em uma roda de amigos e um deles dizer que estava fazendo terapia para lidar com aquela tristeza infinita. Há 14 anos, a palavra depressão carregava significados tão pesados quando na verdade só tem um: é uma doença.

A depressão já foi reconhecida pela Organização Mundial de Saúde como uma doença. Não é frescura. Não é uma forma de chamar atenção. Muito menos algo que vai passar se for ignorado. A depressão é uma doença e precisa ser tratada como tal.

Apesar de estarmos em 2018, várias pessoas ainda não entenderam que ter depressão é algo que pode acontecer na vida quando se menos espera. Assim como gastrite ou enxaqueca crônica, a depressão pode surgir e precisa ser tratada com a seriedade que merece sem ser transformada em algo bizarro. Em algo digno de pena.

Eu não tratei minha depressão aos 15 anos. Eu sabia que tinha a doença, mas não tinha a menor ideia de como fazer aquilo desaparecer. Eu precisava lidar com toda aquela dor emocional 24hrs. Era cansativo, doloroso e me fez adoecer ainda mais.

Aos 23 anos, comecei a ter crises de ansiedade que, rapidamente, se tornaram em crises de pânico. Quem sofre com isso sabe que o desespero que vem junto com as crises te faz se sentir impotente, à beira da morte, e nada do que você possa fazer ou pensar faz com que aquilo pare rapidamente. E eu permanecia sem ser tratada para a doença.

Fui parar em médicos algumas vezes e as respostas iam de virose à anemia. Nos anos de 2012/2013, nenhum dos médicos olhou para mim e identificou que eu estava tendo crises de ansiedade fortíssimas.

O resultado da falta de informação me levou à insônia. Eu costumava passar 20/22 horas acordada. Vivia cansada, sem vontade de fazer absolutamente nada. Lavar uma louça me deixava exausta; arrumar minhas coisas me deixava exausta; sair de casa me deixava exausta. Não demorou muito para que a minha vontade de sair e de viver diminuíssem ao ponto de passar horas deitada na cama. Era muito mais fácil desistir e, aos poucos, isso foi acontecendo.

Eu fui tachada de preguiçosa, mal humorada, chata, fresca, dentre outras coisas. Coisas ditas por pessoas de fora. Meus pais insistiam que eu precisava me esforçar ou eu ficaria em depressão, ignorando totalmente o fato de que eu já tinha a doença.

Foi em 2016 que o tratamento começou de fato. Eu já estava batendo meus próprios recordes de perda de peso, noites sem dormir, compromissos desmarcados e isolamento. Eu tinha dores fortes de estômago, taquicardia, enxaquecas diárias e 0% de ânimo.

Eu estava no fundo do poço fazendo tranças na Samara Morgan. E, mesmo assim, as pessoas de fora achavam que eu devia me esforçar mais.

O estereótipo que envolve a depressão é algo tão forte que, às vezes, os próprios médicos te olham como se seu fardo fosse pesado demais e que, de alguma forma, você acabou falhando em algum momento – coisa que não é verdade. Ter depressão não significa que você falhou. Não significa que você está desistindo de tudo por preguiça de lutar. Ter depressão significa que você está doente e precisa de tratamento. É algo simples, mas que as pessoas insistem em fazer um grande teatro para deturpar o real significado.

Uma doença é uma doença e pronto. E como se trata uma doença? Algumas vezes com fisioterapias; outras vezes com remédios.

Eu tenho depressão e vivo muito bem com isso. Eu faço terapia regularmente. Frequento psiquiatra para ajustar a medicação. Eu tenho uma vida normal.

Não é vergonhoso admitir que tem depressão e que precisa de tratamento. Não é vergonhoso tomar antidepressivos, da mesma forma que não é vergonhoso tomar um omeprazol para controlar algum problema estomacal.

A depressão é uma doença que afeta a mente e reflete no seu corpo. Ela não te faz menor que ninguém e não te torna mais fraco.

Se você chegou até aqui neste texto, se lembre de que os estereótipos destroem e não constroem. Estamos em 2018 e já chegou a hora de acordar para o fato de que para o corpo funcionar bem é preciso que a mente esteja bem.

Escrito com amor por: Mily Pedrazzi.

Foto de: Evan Dennis.

 

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